quarta-feira, 13 de setembro de 2017

quadras soltas (1)

a seara está madura
como a noiva no altar
mas a vida é tão dura
que já não quero casar.

malha-se o milho na eira
e canta-se ao debulhar
há moças a tecer teias
enquanto olham o par.

ouvir não custa nada
e não é preciso pagar
mas a pessoa calada
aprende mais que falar.

bebe-se um copo de três
para começar a manhã
mas à tarde é vê-los à vez
a precisarem dum divã.

já não tenho namorada
desde que a fiz calar
estava toda assanhada
por ver outra no lugar.

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

a vida real

a ficção
é sempre uma má cópia da realidade
e é irrelevante
pois, quanto mais gosto dela, menos a percebo.



quinta-feira, 15 de junho de 2017

as 'petingas' do arrependimento

ontém, num hipermercado, comprei sardinhas e escolhi das mais pequeninas.
as 'petingas' estavam à venda após a empresa responsável ter sido multada e, para eles não perderem tudo, fazendo algum dinheiro, lá foram elas p'ra banca do peixe, à vista de qualquer um.
este tipo de pesca, na legislação portuguesa, é punível.
só não fiquei a saber se o crime tinha compensado, mas que se venderam, venderam.
a empregada ainda me avisou do facto, mas eu ignorei-a.
a antecipação, na ideia de uma gustativa refeição, foi mais forte.
quando à mesa comecei a comer,
senti que tinha colaborado num crime.
um dia destes, quererei experimentar comer sardinhas de tamanho adulto e, não as terei.
mas foi bom come-las e mau por estar a antecipar o futuro.
agora tenho uma certa 'azia' por ser um predador igual ao mercantil empresário.
da empregada, ficou-me a consciência dela como lição.


sexta-feira, 2 de junho de 2017

sinais...

SÁBADO, 27 DE MAIO DE 2017




Era um piar desesperado, em voos de agitação, da sala para o pátio interior e deste para o exterior onde, por uma janela gradeada, mas sem vidros ou portais, entrava de novo na sala.
Daqui, sem portas, voltava novamente ao pátio e poisava num muro limitador.
Revirava o pescoço nos dois sentidos e lançava ao ar toda a angústia, no chamamento de algo.
O meu pensamento, perante este insólito acontecimento, era de que a minha presença estava a incomodar este ser, sem outra razão.
E era compreensível. O barulho que fazia ao limpar os quintais das ervas daninhas, o cortar e podar árvores, o varrer o lixo acumulado no interior, aliado ao pó estampado no chão, davam aquelas duas horas um cenário de guerra.
Foi quando, já no final desta tarefa, ao recolher mais um destroço, dentro dum balde caído, no pátio onde o pássaro continuava em total desassossego, que encontrei, escondido dentro desse balde e por baixo do fragmento de telha, em plástico, a minha total surpresa:
um filhote, de pelugem negra, rabo ainda curto e bem alimentado.
Sem piar e responder aos chamamentos da mãe, mantinha-se imóvel, adivinhando qualquer perigo à sua existência.
Talvez a sua ainda curta vida lhe tenha ensinado os perigos nas incursões de vários felinos.
Os gatos faziam dali território privilegiado na caça e procriação.
Segurei-o com a mão mas, logo em seguida, escapou-se-me. Ligeiro sobrevoou rasteiro para dentro da sala.
Apanhei-o, de novo, e olhando em volta, na escuridão do fumo agarrado às paredes, descobri, por sobre uma janela protegida da intempérie, com vidro,   no que anteriormente tinha sido uma caixa de estore, um ninho encostado a um canto.
Peguei numa numa velha cadeira e com as pernas a tremer (creio do móvel), subindo-a, depositei aquela preciosa carga, dentro do ninho.
Seguidamente, saí, fechando a porta da entrada no pátio e entrei no carro, estacionado em frente à casa.
Fiquei à espera. Logo depois, a mãe veio a voar pousando no gradeamento da janela, que lhe dava acesso à sala e... ao seu tesouro. 
Olhou para mim, alguns momentos que me pareceram tão curtos para tanta felicidade minha e...entrou.
Ainda esperei alguns minutos antes de me vir embora.
E, nesses minutos, a minha alegria era imensa ao ver vida, onde antes
houve morte. O dono da casa pereceu ali, naquela sala, intoxicado por incêndio inadvertido.

Amanhã vou espreitar e saber se está tudo bem...


2 comentários:

  1. Tão belo o que escreveste, Luís... Parecia-me mesmo estar a ver tudo...
    Obrigada por teres estado na minha festa.
    Uma boa semana.
    Um beijo.
    Responder
  2. Uma prosa com a força fotográfica de quem presenciou o vingar de uma vida.
    Um hino à vida, onde a morte encontrou lugar. LINDO, Luís!
    Beijo de luar
    Responder

terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

A Pintora

Capítulo I - Infância

Vestida de espanto ela olhava a paisagem como se fosse a primeira vez. Na sua tão curta mas sonhadora vida, tinha crescido em estreita sintonia com a natureza. Ainda as suas pequeninas mãos tinham a aprendizagem dos movimentos e já ela aconchega a terra em volta das flores envazadas,  retirando as velhas folhas e acariciando as pétalas e botões. Achava aquelas cores, únicas, difíceis de igualar ou reter em papel, quando tentava desenhar e colorir as suas páginas, de um caderno, seu companheiro permanente.
Mal sabia ela que as suas capacidades em memória visual, seriam o seu futuro e o prazer duma vida.

E foi nesse dia, tão especial, que o destino quis orientar o seu olhar.

Por debaixo do alpendre frontal à casa onde nasceu, havia uns poucos degraus, de madeira já descorada pelo tempo, a conduzir os seus pequeninos passos, o pé direito em primeiro lugar, juntando-se ao esquerdo e, só depois, avançando de novo para o degrau imediato.
Era quase num saltitar gracioso, como quando brincava à cabra-cega, que o espaço plano se desdobra ao seu andar.

Em frente à casa, havia um pomar.
Árvores de frutos vários, que o seu avô na sapiência da sua já longa vida, foi plantando e enxertando.
Entre a casa e o pomar, um pequeno espaço fora criado para ela brincar.
Um baloiço, feito de carinho, era o seu poiso, como se um pássaro fosse, onde gostava de estar.

Era assim, com os pés em movimentos, suspensos no ar, que os seus sonhos ganhavam asas para voar.

E que voos acabaria por alcançar...

Mas isso virá mais tarde. Por ora, ficaremos pela infância e no deslumbramento desse tempo, na felicidade e no crescimento.


Capítulo II - A velhice

- Avó, avó...!!!
- Vem ver..., depressa...!
- Olha o céu com um arco de cores.
A avó, no seu lento e idoso vagar, deslocou-se para a varanda onde se encontrava a neta.
Quando chegou à vista de um céu de nuvens e raios de sol a espreitar, ainda teve tempo de ver um arco-iris a espairecer.
- Demorasse muito, avó, e as cores que havia estão todas a desaparecer!
- Havias de ver... era uma grande roda partida que nunca vi na minha vida!
A avó disse-lhe então:
- Minha querida Isabel...!
- Quando eu era pequenina, da tua idade, mais ou menos, eu vi essa composição de cores, noutro céu, que era o meu!
- Um dia hei-de levar-te ao País onde a vovó nasceu!
- Conta, conta...vovó...!
- Tem uma luz sem igual, uma paisagem de deslumbrar...!
- O que é isso, avó...!
- Deslumbrar, é ficar encantada, os olhos verem uma coisa bonita, como tu, quando recebes uma nova boneca...!
- Ia a dizer-te: Essa paisagem do paraíso onde cresci, tinha um rio, também, onde aprendi a nadar e se via a olho nu.
- Ao fundo, lá bem distante, há uma serra, muito alta, que em dias de inverno fica prateada, da neve que a cobre...
- Neve..., avó?
- Como aquele quadro, na sala, que pintas-te?
- Sim!
- Porque gostas tanto dele e nunca o quiseste vender?
- Ai, menina... deixa-me respirar, para calmamente conversar...!
- Gosto das tuas perguntas e da tua curiosidade a crescer... mas assim perco o que estava a contar!
- Vamos por partes...!
- A avó gosta muito do quadro, porque ele foi pintado quando, longe daquele lugar, as minhas memórias me deram uma grande saudade de não lá poder estar. Daí nunca o querer vender!
- Mas a avó Helena é tão famosa que podia pintar outro, para aquele lugar!
- Não, minha querida. Aquele é único, como tu és única, não havendo outro igual. Foi pintado num momento especial e esse momento já não o posso repetir.
- Estás a entender?

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

caracteres


pesam tabuladas as sílabas
descaidas sob as pálpebras
como água em goteiras de penas
e aos olhos já as palavras voam
num sentido tormentoso.
as velas do não querer recolhidas nas mãos cegas rasgaram-se aos ventos do ser.
ainda houve um lampejo insistente
de dor ao recondicionar as letras
com que se constroem montanhas.
ao fim de muito labor uma frase
escapou nas linhas com que se cosem guarda-chuvas tipográficos.
e do céu caíam nuvens esfarrapadas
na borrasca alva que a lua prometia
convite nunca chegado qual noiva na desistência do último altar.
e o chumbo refundia-se no vazio.

(aos tipografos do antigamente)

domingo, 29 de janeiro de 2017

as vozes

muralhas
até aos céus
erguidas
e sobre  a terra
e os mares
estendidas

onde chegarão as vozes?